19 agosto 2010

ALEGRIAS POSSÍVEIS - I encontro de Pais na Equoterapia

       Imagine as seguintes cenas:

• Um jovem de 22 anos pedala a sua bicicleta, enquanto o pai, sentado no bagageiro, orienta-o quanto à direção. Os dois seguem felizes, provocando certa curiosidade, em quem observa.

• Uma criança esconde no guarda-roupa, o brinquedo, cuidadosamente construído com peças de lego. Quer poupá-lo da mania do irmão mais velho, de desmontar as peças. Ele já sabe que o irmão é diferente e que esta é a sua forma de brincar, por isso encontrou uma maneira de preservar os brinquedos por alguns dias.

• Uma mãe observa o filho correndo para lá e para cá. Ela poderia lamentar o seu temperamento agitado e todo o trabalho que tem dado. Em vez disso prevê para ele, um futuro feliz: poderá ser artista de circo, se quiser: equilibrista, ou trapezista, talvez. Certamente tem energia suficiente para isso.

• Outra mãe vê o filho de 7 anos junto com os amigos. Todos estão arrastando-se no chão da sala e a brincadeira parece divertida. O interessante é que apenas uma das crianças tem limitações motoras, as outras estão acompanhado-a, solidárias, já que para o que tem a dificuldade, seria complicado correr, na modalidade mais comum de pega-pega.

• Uma mãe gosta de comentar com todos, sobre os avanços do filho adolescente. Divulga para os amigos, orgulhosa, que ele, como os colegas da sua idade, já usa a internet. O computador, adaptado a pessoas com limitações motoras é a sua ferramenta de conexão com o mundo digital. Executa habilmente, com os pés os comandos que a maioria das pessoas realiza com as mãos.

• Um casal assiste ao filho em uma apresentação na escola: as crianças cantam para homenagear o pai, em seu dia. Uma delas balança a cabeça de um lado para outro, curtindo a música. Parece compreender toda a importância do momento. Sua mãe vivencia esse instante com intensidade, saboreando devagar, cada gesto, cada sorriso, que o filho dá.

       No sábado (07/08/10), o CERN abriu seus portões para os pais dos praticantes. O objetivo era proporcionar a estes, um momento de troca de experiências e também a oportunidade de montar nos cavalos. O evento mostrou-se muito rico para pais e profissionais...

       Após um gostoso café da manhã, Débora abriu a reunião, com um breve comentário sobre a instituição, dando a seguir a oportunidade para que os pais se apresentassem e contassem as histórias dos seus filhos.

       Foi um momento de grande aprendizado. De choros e risos e de algumas conclusões importantes, fruto, principalmente da fala dos pais. A seguir, um resumo:

  •  Cada família trilha o seu caminho em busca de se adaptar à realidade de ter um filho com necessidades especiais. Algumas características parecem comuns a todas: a dor da descoberta, a ansiedade por tratamentos que ajudem o filho a desenvolver-se, a procura por escolas que possam acolhê-los, as saídas possíveis, particulares a cada caso, para contornar problemas de convivência na família e na comunidade onde vivem;

  • Os irmãos de pessoas com necessidades especiais necessitam de diálogo e apoio constante dos pais. Assim têm chance de lidar melhor com as situações pitorescas que surgem na convivência familiar.

  • Filhos precisam de limites. Tenham eles, necessidades especiais ou não. Se desde cedo isso fica claro no ambiente familiar, as chances de uma interação social são maiores. Os pais precisam acreditar nesta idéia, para colocá-la em prática, com segurança;

  • A sexualidade trás questões diferentes a cada faixa etária. É preciso estar preparado para a chegada da adolescência e das questões relativas a ela. Lidar com o assunto de forma natural, buscando informações sem assombros e sem constrangimentos é a melhor atitude;

  • Trocar experiências, em reuniões deste tipo é salutar porque as pessoas fazem circular saberes que podem ajudar outros. Também pela oportunidade de colocar em palavras vivências que marcam, pelo impacto que causam na família destas crianças, adolescentes e jovens tão especiais;

  • Existem hoje mais informações sobre diagnósticos e tratamentos do que a alguns anos. É preciso ter disposição para buscá-los;

  • Os pais relataram que já sentiram-se frustrados, diante de profissionais que deixaram de escutá-los, por acharem que conheciam mais o paciente, do que aqueles que conviviam cotidianamente com eles. É preciso respeitar o saber de familiares e cuidadores;
        A alegria, para pais de filhos com necessidades especiais é um sentimento arduamente conquistado. Talvez por isso, seja saboreado com mais intensidade. É tão genuína, quanto a de outras famílias, mas adaptada à realidade em que estas pessoas vivem. São alegrias desfrutadas após a busca por soluções, às questões de convivência e adaptação em um mundo nem sempre preparado ou disposto à aceitação. Estamos falando...

 Da alegria de um pai, em proporcionar segurança ao filho autista de 22 anos, enquanto ele pedala satisfeito em sua bicicleta;

 Ou da criança que dá um jeitinho de esconder o seu brinquedo, por alguns dias, porque ele também tem o direito de curti-lo, ainda que ame o irmão autista e já entenda a sua necessidade de desmontar as coisas;

 Ou da mãe que sabiamente encontra potencial artístico, na agitação do filho;

 Da mãe que se surpreende positivamente com a solidariedade de crianças tão pequenas.

 Ou daquela que procura criar condições para que o filho, com seqüelas de paralisia cerebral possa se conectar com o mundo, através de tecnologias adaptadas;

 Também para a mãe, que assiste emocionada, ao seu filho cego e autista balançar a cabeça, tranqüilo e satisfeito, ao ritmo da música, enquanto Mariza Monte canta: “Deixa eu dizer que te amo, deixa eu gostar de você... Isso me acalma, me acolhe a alma. Isso me ajuda a viver...”

Texto elaborado por Ana Cláudia Trigueiro de Lucena, psicóloga do CERN.

Débora Pousa
Equitadora e Fonoaudióloga
Diretora Administrativa financira do CERN

2 comentários:

  1. Amei esse texto. Ele retrata fielmente a 1ª reunião da família na Equoterapia(Famílias do CERN), digo isso com conhecimento de causa, pois faço parte dessa equipe, com muito orgulho.Parabéns Ana Cláudia! Parabéns Débora!

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  2. Oi Débora, não sei se lembra de mim. Fizemos o curso Avançado da Ande juntas!
    Parabéns pelo blog! Adorei!!
    Faz pouco mais de 2 meses, abri minha equoterapia aqui em Varginha, sul de Minas. E a primeira pessoa que lembrei foi vc, acredita?
    Parabéns mais uma vez!
    Um grande abraço
    Cris!

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